Atores de ‘Mudança de Hábito’ fazem até fisioterapia nos bastidores

Por Luiza Wolf

Tudo parece lindo quando a gente vê atores cantando e dançando alegremente no palco. Mas o dia a dia nos ensaios não é mole: a equipe técnica e o elenco seguem à risca um cronograma rigoroso (e bem cheio).

Antes da estreia de “Mudança de Hábito”, na última sexta (6), eu espionei os bastidores da peça ao lado do fotógrafo Felipe Gabriel. A visita resultou na capa do “Guia” (veja aqui), mas o blog traz mais algumas curiosidades.

Colada na parede, ao lado das portas dos camarins, estava a temida tabela de horários. Os ensaios duravam, em média, dez horas diárias, de segunda a sábado –e a rotina ficava esquisita, com jantar às 18h, por exemplo. Apesar da correria, o clima no “backstage” é bem animado. “Mas espera só a peça estrear”, me avisaram.

A rotina sobrecarregada, contudo, reflete de outras maneiras. Há, por exemplo, uma sala de fisioterapia. Lá, um especialista está preparado para atender os 31 atores do elenco. Embora as coreografias do musical não pareçam tão difíceis, as atrizes que interpretam as freiras precisam ter força. Como o hábito que vestem vai até seus pés, a coreografia explora muito o movimento dos braços, que acabam ficando doloridos.

O esforço é grande, mas a atriz Karin Hils (ex-integrante da banda Rouge), que interpreta a protagonista Deloris Van Cartier, não parece se preocupar. “Ensaiamos bastante, mas não precisei fazer nenhuma aula específica para dança”, disse. “Esse é meu sexto musical. Acho que amadureci em relação ao trabalho. Mas eu só me viro em dança, desde a época do Rouge”, brinca.

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“Faço exercícios três vezes por semana. Fono e otorrino, uma vez. Até no domingo, que seria meu dia de descanso, faço aula de canto”, conta.

Karin e o restante do elenco contaram com a orientação da equipe estrangeira, que veio ao Brasil para garantir que a montagem tenha a qualidade da Broadway, em Nova York. O diretor Jerry Zacks é norte-americano, mas outros membros da equipe (como técnicos de som e de luz) são da Europa, onde o musical também é bastante popular.

A coreógrafa Fernanda Chamma é a diretora residente no Brasil. Ela acompanhou a seleção do elenco –foram cerca de 2.000 inscritos para as audições.  “Começamos a seleção no meio de 2014″, diz. “E demos início aos ensaios efetivos em dezembro.”

Segundo ela, a equipe nacional também tem liberdade de criar –desde que o conteúdo da peça não seja alterado. Os figurinos e o cenário (inclusive a escultura de uma santa, de cinco metros de altura, que fica ao fundo palco) são idênticos à versão da Broadway. Mas pequenas mudanças podem ser feitas nas falas dos personagens.

Fernanda explica que existem alguns tipos de contrato com as produtoras estrangeiras: alguns espetáculos não podem ser alterados em absolutamente nada (caso, por exemplo, de “O Rei Leão”), outros podem sofrer pequenas mudanças (como “A Família Addams”, também dirigido por Fernanda, e “Mudança de Hábito”) e há ainda espetáculos que só vêm com o molde, uma sinopse pronta, mas que dão a liberdade de escrever o roteiro, por exemplo. É o caso do novo musical dirigido por Miguel Falabella, “Antes Tarde do que Nunca”, que deve estrear em agosto no Teatro Cetip.

Fernanda ressalta que as equipes brasileiras de musical são consideradas umas das melhores do mundo. Não é à toa que a onda de musicais grandiosos vem crescendo no país desde os anos 2000. Curiosa sobre o mercado, conversei com Stephanie Mayorkis, diretora de conteúdo da T4F (Time for Fun), empresa responsável por trazer ao Brasil espetáculos como “O Rei Leão” e “Jesus Cristo Superstar”, além de “Mudança de Hábito”.


ENTREVISTA COM STEPHANIE MAYORKIS
(diretora de conteúdo da T4F)

“Guia” – O mercado de musicais se aqueceu do começo dos anos 2000 para cá. A que se deve essa alta, na sua opinião?

Stephanie Mayorkis – Acho que, na realidade, fomos construindo uma cultura do brasileiro, do paulistano, de gostar de ir a musicais. A T4F foi responsável pelo início de grandes produções no Brasil. Começamos com o primeiro musical “Les Miserábles” (2001); depois veio “O Fantasma da Ópera”, em 2005. Eu diria que, daí em diante, o número começou a crescer muito. Nesses 15 anos, acho que conseguimos fazer uma construção de plateia significativa. Os teatros começaram a se preparar pra receber produções maiores. Acredito que o musical realmente caiu no gosto do brasileiro, que gosta de teatro de entretenimento, peças grandiosas, com figurinos, cenários, com elencos grandes e alto nível de qualidade. Criou-se um hábito de assistir a mais de um musical por ano. Temos números modestos comparados à Broadway, mas existe mais de oito ou dez produções por ano em São Paulo, entre pequenas, médias e grandes. Isso mostra o que conseguimos criar.

Atualmente, você sente que a demanda por teatros e elenco é maior do que a nossa realidade? São Paulo precisa de mais opções de teatro?
Acho que teve um crescimento de público e um aumento no número de salas e produções. Porém, o número de produções não cresceu junto com o público. Acho que ainda faltam opções de teatros com capacidade grande técnica, que possam abrigar uma grande produção. Talvez exista uma demanda pra salas maiores.

É difícil deixar uma peça em cartaz por muito tempo? “O Rei Leão” conseguiu dois anos, mas “Jesus Cristo Superstar” ficou só três meses… por que essa diferença? Como vocês medem a temporada?

Algumas vezes, medimos pela disponibilidade do teatro. É algo que temos que seguir. Mas nos baseamos bastante pela demanda. “O Rei Leão” tinha previsão de ficar um ano e conseguimos estender. Quando é um grande sucesso, logicamente ficamos feliz em prorrogar, mas o tempo é muito relacionado à popularidade do espetáculo.

Antes de trazer a peça, vocês fazem pesquisas com o público?

Sim, fazemos uma pesquisa para entender o que o público quer, o que ele valoriza. Mas esse planejamento tem muitos anos de antecedência. E depende muito também dos criadores originais, que precisam dar a autorização.

Por que o movimento de musicais internacionais é muito maior do que os nacionais? A T4F pensa em dar espaço para peças brasileiras e autorais?

A gente com certeza continua muito focado nas produções internacionais, mas isso não significa que só faremos peças de fora. Os musicais nacionais estão aí, é uma possibilidade. Estamos de olho na reação do público.